Consequências da paragem desportiva nos atletas de formação

A atividade desportiva regular é uma das grandes recomendações quer para a manutenção da saúde física como da mental. 

Uma interrupção forçada das atividades desportivas, além das implicações para os clubes, traz também consequências para os atletas, em especial os de formação, que se vêm limitados na evolução da sua aprendizagem e crescimento saudável nas idades em que se encontram.

Para os atletas que estão habituados a períodos de atividade com um maior nível de intensidade, o período de interrupção dos campeonatos já abarca algumas consequências menos positivas. Este cenário de pandemia mundial veio agravar ainda mais as suas consequências.

Implicações da ausência de atividade física nos atletas de formação

Por norma a ausência de atividade física devido ao término dos campeonatos, coincidente também com as férias escolares, já faz notar alguma quebra na forma física dos jovens.

Agora, com a Covid-19, em que falamos de uma paragem bastante superior ao normal e sem data de término efetiva, as consequências tendem a agravar tanto a nível físico, como psicológico, cognitivo e ainda social.  

Consequências Físicas

Aquando a paragem dos campeonatos devido às medidas nacionais de contingência, foram muitos os que procuraram aplicar o trabalho remoto nos clubes, e que incentivaram os atletas a continuar o seu trabalho em casa, com vista à manutenção da forma física. 

Ainda que tenha sido uma medida louvável, a verdade é que num treino em casa dificilmente se consegue ter o mesmo nível exigência em relação ao treino realizado no clube. Esta diferença prejudica não só as estruturas músculo-esqueléticas como também leva a uma diminuição da força, resistência e potência, essenciais para o exercício da atividade física.

Além disso, no treino em casa não é possível recriar as mesmas situações e condições de um treino coletivo. Esta limitação além de impactar negativamente na aprendizagem de gestos técnicos, conduz também a uma diminuição da dinâmica desportiva, nomeadamente ao nível do pensamento estratégico, e na construção e movimentação de jogo.

Consequências Psicológicas e Cognitivas

Além das condições físicas a paragem desportiva, em especial em atletas cujo nível de atividade é mais regular e intenso, acarreta também algumas consequências para o foro psicológico e cognitivo. 

Na investigação académica que culminou na publicação “Da paixão ao Abismo: O Impacto Indireto da Covid-19 na Saúde Psicológica dos Atletas” docentes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa inquiriram mais de 1400 atletas, dos quais cerca de 49% pertenciam a escalões de formação de 8 modalidades distintas.

De acordo com o estudo a paragem dos campeonatos devido à Covid-19 levou a uma diminuição da percepção do sentimento de felicidade nos atletas. Em adição foram registados ainda níveis elevados de stress e ansiedade, que a manterem-se inalterados podem ter sérias consequências para a saúde.

Por outro lado a diminuição da atividade física e consequente redução do nível de libertação de endorfinas e hormonas como a serotonina, leva a um aumento das perturbações ao nível do sono, conforme registado no mesmo estudo. 

Sendo que cerca de 90% do desenvolvimento na infância ocorre durante o sono, estas alterações podem trazer consequências muito prejudiciais para o desenvolvimento psicológico e cognitivo.

Consequências da paragem desportiva no Desenvolvimento Pessoal e Social

Tendo em conta o importante papel do desporto e dos clubes na formação, a sua paragem pode ser bastante prejudicial para o desenvolvimento pessoal e social dos jovens.

Num ponto de vista mais pessoal, a prática desportiva ajuda a desenvolver competências como o sentido de compromisso e responsabilidade, a autoestima e autoconfiança, autonomia para a tomada de decisões ou a resiliência, por forma a aprender a lidar com o insucesso ou a pressão.

Em termos de competências intersociais, o desporto transmite importantes lições sobre o respeito pelas opiniões e o espaço do outro, e a própria vivência em grupo, onde o todo é por norma mais importante que as partes.

Posto isto, um longo período de inatividade põe em causa todo este trabalho bem com a consolidação das aprendizagens.

Pouca atividade desportiva é melhor que nenhuma!

Por forma a reduzir as consequências da paragem desportiva nos atletas é de extrema importância que os clubes continuem a acompanhar os mais jovens e a incentivar a prática da modalidade.

Seja individual ou de forma coletiva, é importante que os atletas não sejam privados do treino desportivo, não só no sentido de garantir o retorno à competição dentro dos parâmetros mínimos de intensidade expectável e com menor risco de lesão, mas sobretudo para proteger a sua saúde e desenvolvimento.

Porque o nosso futuro depende do crescimento saudável destas gerações!

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Formada em Marketing, a Jessica junta a paixão pelo desporto, em especial o futebol, ao gosto pela escrita. A sua missão? Trazer as melhores práticas no marketing e ajudar os clubes desportivos a melhorar as suas relações externas.